Participar da Convenção Secovi ao longo dos anos tem sido um exercício de atualização.Mais do que buscar verdades absolutas e sim, permite ter uma leitura mais clara de para onde o setor aponta e nos ajuda a guiar clientes, investidores e parceiros com maior consciência.
Sabemos que o mercado imobiliário não muda da noite para o dia, mas vive em constante transformação. Fatos novos, como o cenário das eleições, mudanças de comportamento e ajustes econômicos, alteram os rumos muito rapidamente. Ter essa clareza nos dá a cautela necessária para ler o momento atual e identificar as principais tendências do nosso segmento.
Abaixo, compartilho a minha perspectiva sobre as tendências e reflexões trazidas do evento e como elas se desenham para o nosso mercado:
1. O Cenário Econômico: Eleições, Dívida Pública e os Desafios no Horizonte
Falar sobre o futuro do mercado imobiliário exige olhar para a macroeconomia. Hoje, vivemos um período com muitas indefinições, especialmente em relação ao cenário eleitoral, que naturalmente mexe com a confiança do consumidor e dos investidores.
Somam-se a isso alguns fatores de atenção:
Endividamento e Custo do Crédito: A necessidade do governo em rolar sua dívida pressiona a taxa de juros, o que mantém o crédito imobiliário em um patamar mais alto.
Impactos Fiscais e Tributários: As mudanças de impostos e discussões trabalhistas, se aprovados a escala 6×1, tendem a impactar os custos da construção civil, exigindo ainda mais planejamento dos construtores. O mercado continuará exigindo cautela e uma análise financeira muito bem estruturada antes de qualquer tomada de decisão.
2. Minha Casa, Minha Vida: o segmento da habitação econômica segue com papel fundamental no volume de negócios no país. A grande tendência para este mercado está na criação de mecanismos para facilitar o acesso do comprador final:
Taxas de Juros Reduzidas: Permanecem como o principal atrativo em relação aos financiamentos tradicionais.
Flexibilidade de Pagamento: Estratégias que viabilizam entradas mais baixas e parcelas suaves durante a fase de obra tornaram-se indispensáveis para ajudar a compor o orçamento das famílias.
Saúde Financeira do Cliente: O aumento do endividamento geral das famílias (inclusive com novos hábitos de consumo e apostas digitais ( AS BETS) ) tem gerado maior rigor nas análises de crédito bancário. Orientar o comprador a organizar sua vida financeira antes da aprovação do financiamento virou uma etapa crucial.
3. A Classe Média e o Desafio dos Imóveis Novos
Com o aumento contínuo nos custos dos insumos e terrenos, as construtoras encontram cada vez mais dificuldades para viabilizar lançamentos novos que caibam no orçamento da classe média tradicional.
Possível Escassez de Novos: A tendência é que a oferta de imóveis novos para esse perfil de renda fique mais restrita no futuro.
A Força dos Usados: Com a oferta de novos mais enxuta, o mercado de imóveis usados (prontos) ganha ainda mais relevância. Para a classe média, o imóvel usado segue como uma alternativa sólida e acessível em termos de valor por metro quadrado e localização.
4. Senior Living: Conceito e Oportunidades em Formação
A discussão sobre moradias adaptadas para o público 55+ ganha força à medida que a população envelhece com mais autonomia. Tive a oportunidade de visitar empreendimentos de referência no setor em Curitiba como os desenvolvidos pela Construtora Laguna, que é uma referência nacional no segmento, e foi enriquecedor entender esse conceito na prática.
Embora em cidades do nosso porte regional, como Passo Fundo, ainda não tenhamos lançamentos focados exclusivamente nesse nicho, a tendência indica que esse modelo fará parte do futuro das nossas cidades com breve lançamentos.
Principais vertentes atendidas pelo Senior Living:
Moradia Definitiva: Pessoas ativas (55+) que buscam simplificar a vida, trocando casas grandes por apartamentos privativos com suporte de conveniência, segurança e comunidade.
Uso Temporário para Saúde e Tratamentos: Famílias ou pessoas que buscam locação por períodos específicos para realizar procedimentos médicos, cirúrgicos ou reabilitação em centros de referência, com a estrutura necessária para a recuperação.
Hospedagem e Convivência com Suporte: Pessoas que desejam manter sua independência, mas se beneficiam de uma infraestrutura com serviços de hotelaria e assistência à disposição.
5. Alto Padrão e Ultraluxo: Localização, Metragem e o Fator Banco
Na convenção, ficou clara a diferença entre o conceito tradicional de Alto Padrão e a categoria do Ultraluxo:
Localização Exclusiva: É a premissa máxima do ultraluxo. Terrenos altamente desejados e difíceis de replicar.
Metragem e Espaço: Falamos de plantas que superam os 300 m² de área privativa, inseridas em terrenos amplos (muitas vezes a partir de 2.000 m²).
Área de Wellness (Bem-Estar): Andares ou espaços inteiramente voltados para a saúde física e mental do morador, com spas, academias de alto desempenho e áreas de relaxamento.
O Desafio da Negociação no Altíssimo Padrão
Nesse segmento, o corretor e a construtora enfrentam uma barreira específica: o próprio gerente do banco do cliente.
Com a taxa de juros elevada, quando o cliente de alto padrão comunica a intenção de comprar um imóvel, o sistema financeiro costuma argumentar: “Por que ter pressa? Deixe o dinheiro rendendo no banco”. Para superar esse cenário, o imóvel de ultraluxo precisa entregar raridade, arquitetura única e um desejo de posse que vai além do cálculo financeiro tradicional.
6. Multifamily: Gestão Profissional e Renda
O modelo Multifamily (prédios inteiros pertencentes a um único proprietário ou fundo, destinados exclusivamente à locação) reforça a tendência de profissionalização do mercado imobiliário. Em vez da gestão dispersa de unidades, a administração centralizada garante manutenção constante, serviços agregados e maior eficiência na rentabilidade do ativo.
Considerações Finais
As reflexões trazidas da Convenção Secovi 2026 mostram que o mercado caminha para a especialização. Não existem respostas prontas, e sim tendências que precisam ser interpretadas de acordo com a realidade de cada região e o perfil de cada cliente.
Seja para planejar a compra da casa própria, escolher um imóvel usado de boa liquidez, analisar a viabilidade de um lançamento ou proteger o patrimônio na categoria de luxo, ter uma leitura cuidadosa do cenário atual é o primeiro passo para realizar negócios mais seguros.
Por: Eneia Verdi

